DESENHANDO BONSAI     –     PROJETANDO O FUTURO BONSAI



Ao longo dos anos venho aprimorando técnicas, desenvolvendo e cultivando plantas, com vistas a formar o que se poderia chamar de um bonsai de qualidade. Nesse intuito,  busquei obter conhecimento, absorvendo a didática e a informação ministradas em cursos, eventos e workshops por alguns conhecidos bonsaistas nacionais, como Carlos Tramujas, Osamu Hidaka, Regina Suzuki, Renato Bocabelo, Roberto Gerpe, Rock Junior, Fernando Magalhaes, dentre outros, e tambem mestres internacionais, como Roy Nagatoshi, Charles Ceronio, Morten Albek, Tooru Tsukui, etc.

Com eles aprendi muito sobre a arte bonsai. Para aumentar e melhorar o cabedal de conhecimento adquirido com eles e com outros bonsaistas de qualidade indiscutível, empreendi esforços no sentido de buscar mais informações em revistas especializadas, como Bonsai Pasion, Bonsai Today, Bonsai Actual, Satsuki, Bonsai Sekai, Kinbon, etc. Li e estudei com afinco livros didáticos de grandes mestres como Naka, Kimura, Peter Adams, Tollinson, Amy Liang, dentre outros.

Graças aos mestres e aos livros e revistas, descobri que fazer bonsai é algo relativamente simples, fácil de ser feito, ainda que, como toda arte, tenha entre seus princípios regras e diretrizes a serem devidamente assimiladas. Uma arte que possui técnicas e métodos complexos, mas que possibilita a qualquer um que a ela se dedique com afinco obter com seu trabalho diligente algo melhor que uma simples arvore miniaturizada plantada numa bandeja.

No entanto, apesar de aprender excelentes conhecimentos com os mestres nacionais e internacionais,  senti falta de algo mais. Embora sua didática e dinâmica de ensino seja impecável e bem conduzida, percebi que nenhum adota a praxe de estabelecer um caminho mais nítido para se atingir a finalidade a que se propunham ensinar. Isto pode parecer estranho, mas nenhum deles mostrou, em desenho, algum projeto para determinado trabalho que executou, preferindo demonstrar, na prática, como transformar uma muda bruta num possível bonsai.

Não faz parte de sua didática de trabalho ensinar esse tipo de atividade nos cursos que ministram. Acredito que isso se deva ao fato de que, como todos nós que praticamos a arte do bonsai, o desenho ou projeto existe apenas na mente de quem cria, e que, por isso, não se teria a necessidade de fazer um esboço numa folha de papel em branco, apontando a direção a ser seguida, ou a melhor maneira de conduzir aquela determinada planta para que ela alcance a plenitude imaginada pelo seu autor.

Observamos uma planta bruta, analisando todas suas principais características. Olhamos a planta por todos os ângulos, inclinando-a para os lados, ou vendo-a de cima para baixo, ou de baixo para cima. Escavamos seu solo, em busca do que chamamos nebari, apreciamos o movimento levemente sinuoso de seu caule, a distribuição de suas ramas e galhos, tomando nota, mentalmente, do que cortar, do que manter, do que fazer para melhorar e apresentar, ao final, um trabalho magnificamente imaginado.

Nos cursos de que tenho participado, em tempo algum alguém sugeriu que o demonstrador fizesse, antes de iniciar os cortes e podas, um desenho mostrando a planta como estava sendo vista inicialmente, o meio do trabalho e a finalização pretendida pelo autor do trabalho naquele momento. O autor, aliás, também não se manifestou nessa direção, preferindo apenas explicar, detalhando, minuciando as posições e atitudes que irá tomar ou que adotou, para que tal e qual coisa fizesse sentido, mostrando, dessa forma, qual o caminho escolhido por ele para processar aquela planta.

É indiscutível que todos nós,  bonsaistas, tenhamos uma idéia pré definida do que seja um bonsai e do que fazer com determinada planta para atingir esse objetivo. Ao longo dos anos de aprendizado e de trabalho prático, vamos adquirindo conhecimento técnico sobre formas de trabalho, ferramentas manual e elétrica, fisiologismo vegetal, adubação, rega, botânica. Essa base nos permite, então, indicar com precisão determinadas qualidades ou características inerentes a essa ou aquela espécie, favorecendo nosso contato com ela, possibilitando que possamos então praticar a nobre arte bonsai com o fito de desenvolver algo mais que um simples corte e envase.

Mas, ao analisar tudo isso, descubro que realmente falta algo de suma importância, que deixei de aprender algo que realmente me daria ainda mais fundamentação e conhecimento sobre como trabalhar verdadeiramente uma planta com vistas a formar nela um bonsai de qualidade: o desenho, o projeto desenhado.

Projetar um bonsai é algo muito, mas muito difícil mesmo. Talvez por isso, aliado a dificuldade que muitos de nós temos para com o desenho em si, é que na verdade não adotemos essa prática interessante e correta de trabalhar.

Sou péssimo desenhista. Sempre fui. Nunca tive pendor artístico para esboçar, com poucos traços, qualquer coisa que se possa, num relance, ser definido com precisão como algo que represente alguma coisa, qualquer coisa. E olha que tenho tentado, ao longo da vida, fazer alguns desenhos. Mas todos saíram fracos, apenas algumas linhas desiguais, sem nexo nenhum, sem sentido e sem forma. Irrelevante ao ponto de não reconhecer, neles, algo que se possa definir como desenho.

Triste mas verdadeiro. E o mais importante de tudo: uma verdade que não é só minha. Vá procurar desenhos de bonsai projetados pelo Tramujas, Hidaka, Regina Suzuki, Rock Junior, Fernando Magalhães, etc. Qualquer um deles pode ater ter feito algo nesse sentido, mas até onde sei, não mostraram isso em nenhum evento de que participei, nem citou isso como sendo uma prática a ser observada por nós, iniciantes na arte, como algo a ser tentado, buscado.  

Um bonsaista com quem aprendi alguma coisa, porém, se sobressaiu nessa seara: David Yamamoto. Lembro dele, com uma folha de papel nas mãos, traçando riscos, seguindo a linha do material a sua frente e tentando, da melhor maneira possível, esboçar um projeto para uma planta. Sua perícia atingiu um patamar tão bom que chegou a ter desenhos seus publicados numa revista nacional de bonsai, em que apresentava desenhos de projetos de plantas, trabalhando sobre fotos enviadas por leitores da revista.

Alguns fóruns de discussão de que venho participando, como Parlons Bonsai, Luso Bonsai, Art of Bonsai, Atelier do Bonsai, tem entre seus participantes, artistas que se preocupam com essa vertente artística, apresentando projetos tanto para plantas suas quanto de outros colegas, ou mesmo desenhos diversos, sem nenhuma relação com determinada planta,  apenas arte pela arte. No Atelier, há alguns anos, o bonsaista/forista Marcelo Duprat enveredou por um caminho mais artístico, fazendo desenhos representando os principais estilos clássicos japoneses de bonsai. Esse material encontra-se à disposição de qualquer interessado no site do Atelier. Outro grande artista, o espanhol Ruben Roig, apresentou excelente trabalho artístico, desenhando plantas que estudou e analisou minuciosamente bem. Seu trabalho apresenta riqueza de detalhes, tendo sido publicado na revista espanhola  Bonsai Pasion, editada pela Mistral Bonsai.

Ainda no Atelier, temos a grata companhia do forista/bonsaista Alexandre S. Coelho , que nos tem brindado com magníficas projeções, contando com uma grande galeria em que apresenta seus trabalhos ao longo dos anos que tem participado ativamente do Forum do Atelier. Pesquisando suas postagens no Forum do Atelier do Bonsai, podemos acompanhar a evolução da qualidade de seu desenho, aprimorando sua técnica em desenhar cada vez com maior precisão, sem perder a verve artística.

Há pouco, no Facebook, encontrei e visitei a pagina do bonsaista , que apresentava uma idéia nítida do assunto que ora discuto: como fazer um bom desenho de projeção de um bonsai. Ele postou desenhos seqüenciais, no estilo que chamamos de passo a passo, com riqueza de detalhes, o desenho de um possível trabalho de formação estrutural de um bonsai estilo Hokidachi.

Ao tentar reproduzir seu desenho, seguindo sua orientação, repetindo o traçado que ele executou, descobri que não é algo tão difícil assim. Claro, é preciso um pouco de prática e muita repetição para que isso, com o tempo, torne-se um ato mecânico, que possa ser estendido a todo material com que nos dispusermos a trabalhar, visando formar um bonsai a partir de determinada planta.

Como tudo mais nessa vida, é preciso calma, paciência e tenacidade, bem como estar decidido a obter qualidade no que fazermos, se quisermos de fato aprender a desenhar um bonsai. Não se trata, é claro, de atingir a magnífica perfeição artística de um Ruben Roig, ou a qualidade inegável do Marcelo Duprat. Mas, com prática e estudo acurado, insistência e paciência, talvez possamos aprender a desenhar quase tão bem como o faz o bonsaista Alexandre ou mesmo o  bonsaista David Yamamoto.

Naka, em seus livros Técnicas de Bonsai I e II, mostra seu grande talento em desenhar com maestria arvores na natureza, reproduzindo-as, via desenhos,  como bonsai, inclusive. Seja em traços leves, mas precisos, ou com contornos realísticos e detalhistas, ele soube como ninguém aliar a arte bonsai ao desenho de projeção, tanto para seus trabalhos quanto para outros, apenas projetos, apenas desenhos em seus livros.

Buscar esse conhecimento, agora, é para mim algo tão essencial quanto aprimorar uma técnica de cultivo ou de formação de um bonsai. Acredito que muitos pensam como eu, mas por razões diversas se sentem tolhidos em suas pretensões a lançar mão de mais esse excelente recurso de aprendizado e, por que não, de concretização do que realmente seja fazer de fato um bonsai.

Antes de sair cortando, eliminando ramas e galhos, entortando aqui e ali, precisamos primeiro desenhar o que está a nossa frente. Quanto mais detalhistas pudermos ser, colocando mais pormenores em nosso desenho, maiores serão as chances de que, ao passarmos para a prática efetiva, o façamos com calculada retidão, com aprimorada técnica, evitando desperdícios inúteis, ou interferências equivocadas e erráticas.

Aprender a desenhar o material a nossa frente, antes de atacá-lo com tesouras e alicates, arames e outros meios de agressão, é uma boa forma de estabelecer um primeiro contato de maneira correta com outro ser vivo, que, tanto quanto nós  merece ser reconhecido nesse contexto, ter nossa atenção e nosso respeito. Vamos ao desenho? Começar é fácil, continuar é ótimo e aprender é crucial. Uma nova fase nasce para nós a partir de agora, em que nos empenharemos ao máximo em conseguir algo que parecia, antes, inatingível.